lukas castro» Arquivo » Toc-toc, posso entrar? [1]

Toc-toc, posso entrar? [1]

– Não.
– Não? Porquê?
– Nossa, tá uma bagunça aqui dentro!
– Mas não tem problema. Eu não me importo com isso. Aliás, eu até te ajudo. Tá precisando de alguma coisa?
– Não! Na verdade… Sim. Mas não precisa se preocupar. Eu consigo resolver sozinho. Só preciso colocar umas coisas no lugar e tal. Não precisa se preocupar, sério. Eu só preciso de um tempo.
– …
– Quando as coisas estiverem mais organizadas eu te ligo, não sei.
– Tá certo. Tudo bem… Então, vou indo.
– Ok.


Somos todos como casas. Umas são maiores e possuem suítes, sala de TV e quarto de hóspedes. Outras já são menores, com apenas um banheiro compartilhado e está muito bom. Mas não somos reflexo do que foi planejado em nossa construção. É tudo carcaça, presunção, aparência e expectativas. Somos reflexo do estado interior da nossa moradia. Reflexo de como tratamos nossos pertences, de como cuidamos deles para que durem e de como fazemos para que nosso espaço seja receptivo e agradável de se permanecer. Tanto para com os outros, como para conosco.

Não adianta ter o melhor espaço e não dar conta de cuidar. Deixando que as coisas pereçam por descuido, preguiça ou por inúmeras desculpas. “Ai, não tenho talento para cuidar de casa!“. Viver de aparência. Muito menos, se deve amontoar uma minúscula “quarto-sala” com tanta coisa, atrapalhando a locomoção e enfeiando o ambiente. Acumulador e apegado.

E infelizmente (ou não!), não podemos pular as tarefas que nos cabem. Não é possível passá-las adiante ou pagar para que alguém resolva-as para nós. Podemos até mudar de casa e dizer que finalmente encontramos ‘O Lugar’. Porém, continuaremos tratando as coisas da mesma forma. Apenas adequaremos o que possuímos a um novo ambiente. Porque se tiver que haver alguma mudança, ela deverá ser interna. Sair daqui para ali, não resolverá os nossos problemas de organização, de limpeza ou de rotina. Não se trata do espaço físico disponível, mas sim de como torná-lo um local adequado para ser chamado de lar.

E um lar, vai refletir as formas que você se adéqua, cria e se adapta, se posiciona e se questiona. É tudo sobre as estratégias para tirar todo o lixo das extremidades e de como são organizadas as roupas no armário; do cuidado com os porta-retratos e com os arranjos floridos da mesa de jantar. Reflete na importância que você dá ao abrir as cortinas e janela e da sensação física que você vai sentir ao deixar que o vento entre e bata em seu rosto. Um lar é formado por tudo aquilo que você deixa entrar e que cuida, para que permaneça.

Toc-toc, o que você deixa entrar em sua vida casa?

[continua]


avalie:

Comentários